terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Por quê falar de música? E do Rei?


Olá,

Blog são por natureza, diários virtuais. Eu já possuo outro, que é a combinação de minha duas paixões, cinema e música, chamado Aquela Música Daquela Cena. Sim, outro site com nome longo, herança de meu grande ídolo, Morrissey, dos Smiths, minha banda preferida. Para quem sacou o nome do site, percebeu que e trata de uma alusão ao efeito que Conbray teve ao provar os biscoitos (madalenas) com chá, em No Caminho de Swamn, o primeiro dos sete volumes da obra Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, um dos clássicos da literatura universal.

No trecho do livro o autor descreve de maneira única, ímpar e de maneira notável, o que acontece quando lembranças são trazidas por uma sensação, que pode ser gustativa, olfativa etc. Quer um exemplo fácil? No final de Ratatouille, o crítico gastronômico prova o prato simples feito pelo rato e relembra sua infância pobre e o amor que sua mãe colocava na comida, no mesmo prato. Não por acaso, a cena mais emocionante do filme. É assim que me sinto.

Certa vez vi uma matéria sobre um grande enólogo que conseguia saber o gosto de todos os milhares de vinhos que havia provado na vida. Mal comparando, sou assim. Praticamente nunca esqueci uma música que já tenha cantado uma vez ou me atentado a um trecho que seja.

O que pretendo aqui é um diário que demonstre os fragmentos das canções que for lembrando aleatoriamente e postando, sem periodicidade, somente por prazer. E por quê o Rei, Roberto Carlos?

O ano de 2016 foi um ano muito difícil. A galera do Golpe venceu e as conquistas sociais retrocederam 20 anos. Aconteceram várias mortes marcantes: Prince, David Bowie, Leonard Cohen e uma extensa lista de gente boa. Mas quando apareceu o Roberto Carlos na noite de Natal cantando suas canções clássicas, me passou um sentimento reconfortante, uma ideia de um lugar intocado em que as coisas belas ainda estão em seu lugar. Para mim tudo estaria bem quando ligasse a TV perto do Natal e ouvisse o Roberto cantar as canções que ele fez, bem, para todos nós.

Mas não é só isso. A infância pobre, mas feliz, tinha sempre uma trilha sonora no rádio de pilha ou na vitrola. Jovem Guarda, chorinho, grandes sambistas, brega, e o Rei. Com o tempo as canções foram ficando simbólicas de uma época, e acredite, depois de quatro décadas parece que pertencem a uma outra vida. 

Já adulto percebi que era muito fácil tachar o Robertão como decadente, mas a verdade é que suas músicas são excepcionais. Por isso, de cara não separei uma música apenas, que é a ideia do post, mas uma coletânea muito bem feita por alguém no Youtube com muitas das canções que as pessoas, mesmo as fãs, mal conhecem.

Bom, é isso. Como diria, Nietzsche, um dia sem música é um dia desperdiçado. Então, vamos cantar!



O que me toca


"Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.
Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.
De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligado ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde aprendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada demais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim." 
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO - O caminho de Swan" - Marcel Proust